No domingo fomos almoçar na casa do mano mais velho do Respectivo. Minha vontade de ir não era das maiores - cheguei, num dado momento, a me recusar a acompanhá-lo. Mas capitulei porque ele foi legal comigo no sábado, me levando para passear no shopping de Romford, almoçar no Outback (eu não sabia que Outback existia fora do Brasil) e aguardando pacientemente enquanto eu fazia escova no cabelo. 

O irmão é bacana, mas eu tenho restrições quanto à namorada. Boa pessoa, porém mulher e inglesa. Todas sabe que eu tenho problemas com essas duas amostragens humanas em separado; quando combinadas a coisa piora bastante. Tenho a sensação de que estou sendo observada, analisada e julgada (desfavoravelmente) o tempo todo e eu podia passar sem isso. Também tenho a sensação de que as pessoas aqui toleram imigrantes numa boa, desde que eles fiquem em seus lugares - isto é, casados com conterrâneos, trabalhadores, humildes, longe das vizinhanças abastadas e devidamente pobres. 

O irmão gosta de caçar. Não tenho muitos problemas com isso, até porque ele consome tudo o que mata. De certa forma é um carnívoro mais merecedor do que eu, já que põe na mesa a carne que caçou com as próprias mãos, enquanto eu, defendendo de forma pouco convincente as vantagens de se estar plantada no topo da “cadeia alimentar”, compro meus bichos mortos já limpos, fatiados e higienicamente embalados em plástico e isopor. É difícil respeitar a morte de um ser vivo se a única parte que você vê dele é um bife que em nada lembra a gloriosa existência encerrada num abatedouro. Eu jamais atiraria para matar, mas isso não me faz melhor do que o cunhado; só me faz mais covarde. Ele construiu uma espécie de abatedouro/frigorífico nos fundos do jardim, em madeira pintada de vermelho com janelas brancas - igualzinho a uma casa de campo finlandesa, com direito a tinta importada da escandinávia. Lá dentro ele limpa, corta e congela as vítimas, digo, jantar.

Comemos carne de Bambi. Ok, na verdade o negócio mais parecia uma sopa. A namorada usou uma dessas panelas elétricas para cozinhar a carne lentamente, só que a meu ver a coisa cozinhou demais e havia mais caldo do que carne no prato. Como eu não pude tocar nas batatas, cenouras e batata doce, devo confessar que fiquei com fome. O sabor da carne de veado foi aprovado; lembrou muito carne de boi assada. Veado entra para a lista de “carnes exóticas degustadas na Europa”, ao lado de avestruz (na Alemanha) e rena (na Finlândia). Também provei lagosta pela primeira vez na França, e em Jersey mesmo faisão e salmão. Nunca experimentei coelho, apesar de rabbit pie constar da minha lista de “coisas para comer antes de morrer”.

De sobremesa havia uma mousse de frutas vermelhas, feita em casa, que parecia ter sido muito gostosa antes de ser esquecida no freezer… Toca colocar colheres de molho em água fervendo para tentar derreter o bagulho; mas estava tão congelado (e a casa tão fria) que o negócio permaneceu em Iceberg Mode On durante todo o tempo em que ficou plantado no meio da mesa, sendo cutucado, espancado e esfaqueado por todos aqueles que pretendiam comê-lo. Bem, eu não podia anyway. :)

O curioso foi quando a namorada foi procurar a mousse no freezer da cozinha e não encontrou. “Procure no freezer grande, embaixo dos esquilos!” foi a resposta do cunhado. “Embaixo do QUÊ??”, perguntei eu, e então ela me levou até o freezer imenso que fica no tal abatedouro/frigorífico e dentro dele havia pequenos esquilos cinza congelados dentro de sacos plásticos, as patinhas na frente do corpo e os dentes de fora. 

Esquilos cinza são vistos como “peste” na Inglaterra, já que não são originários das ilhas britânicas. Foram trazidos da América do Norte por algum idiota que os achou bonitinhos e causou um enorme e irreparável desequilíbrio ecológico. Os grandes esquilos cinza são mais agressivos que os pequenos vermelhos (nativos da Inglaterra), e vencem fácil a competição por comida. Além disso são portadores de um vírus que não lhes faz mal algum porém mata os vermelhos, fazendo com que eles estejam praticamente extintos no seu habitat natural (em Jersey os vermelhos permanecem já que os cinzas felizmente não cruzaram o canal). Apesar disso não acho que promover uma carnificina de esquilos yankees vá fazer muita diferença agora, sinceramente.

A namorada se prontificou a explicar: “ele mata os esquilos e guarda para um amigo, que tem uma serpente de estimação; ela adora um delivery de esquilinhos!”. Engoli em seco pensando nos esquilos que moram no meu jardim em casa e passam o dia pegando sol sentados na cerca, coçando a barriguinha. Para completar o dia, o irmão declarou que atirou num gato que estava roubando a comida do gato da família - e que o próprio gato da família seria curado com um tiro quando ficasse doente, já que eles gastaram uma quantidade impossível de dinheiro tentando curar o anterior, em vão. Compartilho do sentimento, mas não consigo aprovar o método.

Festa estranha, com gente esquisita.
Fiz um omelete quando cheguei em casa.

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