Fiquei meio bolada de continuar com esse “mini blog” depois que pessoas do passado o encontraram. Existe algo de creepy nesse lance de “seguir” na internet. Twitter, formspring, tumblr. Antes éramos leitores, hoje somos seguidores. Isso me lembra aqueles cultos religiosos bizarros, onde os followers se reúnem em grupos agindo como dementes. Me lembra também um cartoon onde um camarada de camisa listrada e venda preta sobre os olhos se esconde na escuridão atrás de postes seguindo a mocinha loira, peituda e de cintura fina que volta para casa sozinha à noite. Não gosto dessa palavra. Não gosto dessa idéia.

Fomos para Brighton no domingo. Resolvido de última hora no sábado, já que eu passei a semana toda em casa por conta dos riots - não que eu estivesse me fodendo (sou carioca, afinal de contas), mas marido surtando em Jersey ao ver pela TV o colapso da sociedade dele me deu ordens restritas para aquietar o rabo em casa. Não que eu obedeça ordens. Ok, vamos confessar que eu estava é com preguiça de sair de casa, preguiça tão grande que venceu minha vontade de me vestir de patricinha (para não ser confundida com um hoodie pela polícia, mas não *tão* patricinha do contrário acabaria carbonizada pelos criminosos) e ir para a rua presenciar a história sendo feita. No melhor estilo “perdi a queda do muro de Berlim, me sobram lojas de artigos esportivos pegando fogo na periferia.”

Tivemos cerca de cinco horas em Brighton. Quatro foram graças à duração máxima do bilhete de estacionamento; a quinta hora foi bônus porque esquecemos do limite de tempo, mas foi gasta entre correr de volta para o carro e procurá-lo - porque também esquecemos em que rua ele foi largado. No sábado, véspera da nossa visita, aconteceu a parada Gay Pride na cidade, que aliás é a principal capital LGBTT do país. Havia bandeirinhas de arco íris por toda a parte e alguns restaurantes anunciavam “Pride Menus” ou “Menus with Naughty Little Surprises”. Achei um clichê dos infernos, mas pelo menos é melhor do que barrar gays em hotéis e restaurantes como aconteceria fácil há alguns anos atrás (e como aconteceu ano passado).

Tomamos café da manhã num desses beach cafés onde praticamente tudo envolvia a presença de batata ou farinha. Meu prato de english breakfast foi praticamente devorado pelo meu marido. Comi apenas os cogumelos, a sausage minúscula, o bacon e recusei o ovo por estar praticamente cru; ele comeu os feijões, a torrada (que parecia ser a melhor parte do pacote), os anéis de cebola frita e os deliciosos hash browns de batata. O vento estava absurdo. Tentei alimentar os pombos com a cebola frita mas eles recusaram. E quando POMBOS recusam comida é sinal GRITANTE de que você deveria recusar, também. Fomos caminhar na orla e conheci o pier de Brighton. O pier é de uma cafonice inigualável: stands de comida lixo, um cara gordo e meio afônico tentando imitar o Mick Hucknall do Simply Red (imediatamente apelidado pelo respectivo de “Sick Fucknall”), um mini-cassino cheio de luzinhas piscantes bregas populado por losers tentando a sorte nas maquininhas, hordas de turistas adolescentes italianos agindo como turistas adolescentes italianos (ou seja, como hienas bêbadas no cio) e gaivotas saqueando sorvete das mãos dos descuidados.

Comprei uma mochila de couro feita à mão por um marroquino sorridente e meio ensebado, que se recusou a me dar desconto porque, palavras dele, “era o mês do Ramadan e por causa do jejum ele não tinha energia para barganhar”. Levou o troféu argumento criativo do ano, e talvez apenas por isso eu tenha pago as quarenta libras que ele me pediu pela bolsa. Me arrependi da compra cerca de três minutos depois. Também trouxe para casa um imã de geladeira para a minha coleção, no formato de uma casinha de pescador - apesar de eu não ter visto nenhuma delas naquela praia. Eu até tentei escolher algo mais genuíno, mas as outras opções eram: um casal de golfinhos (não existentes em Brighton), leões marinhos (idem) ou uma menina fazendo castelos de areia (areia não existente em Brighton, que é uma pebble beach - praia de pedrinhas).

Descobri que prefiro praias de pedrinhas - por mais que os brasileiros insistam em dizer que não é a mesma coisa. É claro que não é a mesma coisa, ora bolas. Pedrinhas são bem melhores. Pedrinhas não entram na sua bunda, não grudam na sua pele, não voam na sua cara te deixando cego (ou na sua comida, transformando seu sorvete em farofa sabor mijo de cachorro), não se imiscuem para dentro do seu biquini fazendo parecer que você acabou de cagar nas calças. Ok, não dá pra construir castelinho de areia, mas as crianças hoje em dia levam Nintendo DS pra praia anyway. Por curiosidade, havia baldinhos de areia no formato de castelos à venda nas tendinhas da praia. Para encher de pedras? Fui obrigada a dar uma gargalhada, o que deixou a dona da loja meio uneasy. Foda-se.

Fomos procurar o tal Royal Pavillion de Brighton, que é inspirado em arquitetura hindu. Realmente lindíssimo, pelo menos por fora. Nunca saberei como é por dentro, já que eles cobram quase 10 libras pela entrada. Já estávamos conformados e indo pagar quando eu decidi fazer uma foto de uma estátua de um pássaro que ficava logo depois da entrada. Foi quando o guarda veio me informar que “fotografia era estritamente proibida dentro do pavilhão”. Eu, que nunca acabo de entender esse tipo de proibição idiota, infelizmente muito prevalente nos dias de hoje, não tive dúvidas. Dei meia volta e fui embora. Se a entrada fosse gratuita eu pensaria duas vezes, mas não vou pagar para ser impedida de fazer uma simples foto. 

Por causa dessas atitudes tenho fotografado bem pouco quando saio. O receio de ouvir mais um imbecil me proibindo de fotografar seu precioso artesanato brega, por exemplo, alimenta a minha preguiça extrema de tirar a câmera da bolsa. Porque um dia qualquer eu acabarei esquecendo a educação e mandando a pessoa enfiar seu boneco de cera, seu pinguim de cerâmica coberto de paetês, seu vaso pintado a dedo com tinta guache, seu pavilhão real de 300 anos de idade inteirinho no meio do olho do cu - e o cenário não vai ficar bonito. Certamente não vai render fotografia.

A parte central da cidade é bem interessante, do ponto de vista arquitetônico e paisagístico. Construções em estilo vitoriano, art deco, cobertos por azulejos, a variedade era fascinante. Mini jardins e pracinhas pontilhavam de verde as esquinas e rotatórias. As lojinhas também eram deliciosas. Comprei uma pulseira dourada bastante bling por 15 dinheiros numa loja de vestidos etéreos, música ambiente estilo Enya, vendedoras bem maquiadas e clientes com cara de nojo. Gostaria de ter tido mais tempo para explorar as possibilidades comerciais de Brighton, mas marido já estava começando a aparentar desespero quanto ao paradeiro do carro. Eu acho que moraria em Brighton. O centro oferece a maioria das lojas que interessam (Marks & Spencer, Waitrose, H&M, Zara, BHS, Waterstone’s, PC World, Argos, TopShop, etc) e outras pequenas, locais e interessantíssimas - além de um shopping center, que eu não tive tempo de explorar. A densidade populacional é bem menor que Londres, e fazer compras ali certamente mais agradável do que encarar Oxford Street num sábado, por exemplo. A cidade me lembrou Jersey - só que com mais gente, lojas melhores e a uma hora de trem do centro de Londres.

Talvez por causa da parada gay do dia anterior, o lugar estava lotado de gays, lésbicas e gente alternativa de modo geral. Vi mais cabelos coloridos per capita do que vejo em Camden town. Muitos barzinhos, restaurantes, e muita gente com cara de feliz sentada neles. Vi uma família linda (pai 1, pai 2 e menininho de uns 3 anos) trocando abraços e beijinhos coletivos numa praça debaixo de um chafariz sob o sol, e meu coraçãozinho ficou piscando em cores neon com direito a chuva de glitter de tanta fofura. 

Voltei para casa com fome por causa do café da manhã ridículo (tivemos que parar num pub rústico no meio do caminho onde eu consegui jantar um peixe) e, mais especificamente, com metade do colo e os ombros vermelhos de sol (câncer de pele manda abraço). Mas é. Eu moraria em Brighton.

*título do post cortesia desse filme, cujo DVD eu tenho há meses e nunca sequer abri.