Discussãozinha rolando no Facebook sobre Adele ser ou não mais bonita/talentosa/interessante/gorda que a Beth Ditto.
Me perguntei distraidamente como deve ser chato ser gordo e ser comparado a outra pessoa on the sole basis de que a outra pessoa é gorda também. Mesma sensação de ser brasileiro, chegar numa festa na Bélgica e ser apresentado a outro estranho, e todo mundo ali esperando que vocês fiquem super amigos só porque vieram do mesmo (vastíssimo) país. Ou de ser o único negro na vila e, quando uma negra se muda para lá, perceber que está todo mundo esperando que vocês se casem e tenham filhos pretinhos, porque né, “afinal vocês são pretos!”.
Divago.
Eu gosto da Adele, mas meio que não gosto da Adele. Falta uma certa personalidade ao trabalho dela, um certo punch. Não que seja ruim ou necessariamente pré-fabricado. Ela tem uma boa voz - nada excepcional. Mas é a voz dela mesmo ali, nada de autotune pra “ajudar” a menina a cantar, como fizeram com aquela nulidade que é a Cheryl Cole e tantas outras garotinhas bonitas, magras mas sem o menor talento. É preciso usá-las para alguma coisa midiática, a fim de não desperdiçar a beleza. Fica difícil transformá-las em atrizes porque fingir ter talento pra atuar não dá. Mais simples colocar a voz precária num computador que vai mastigar, digerir e cuspir um timbre vagamente comercial, vagamente robótico, vagamente cheirando a polipropileno.
Adele é muito bonita, o que sempre ajuda comercialmente. As pessoas gostam de olhar para pessoas bonitas, o apelo estético é inegável. Tem uma personalidade gostável, não fala merda em série feito a Lady Gaga e nem tem fama de bitch como a Madonna. Tem um repertório bastante comercial, que não ofende os mais sensíveis com palavrões ou uso de referências sexuais. Acho que Adele é uma receita absoluta de sucesso, tem tudo para agradar, nada para chocar, e vende discos entre adolescentes sonhadoras, donas de casa querendo uma melodia pra assobiar e adultos amargurados recordando amores perdidos ou lamentando os impossíveis.
Beth tem atitude de sobra, mas eu não gosto do timbre da voz dela. Adoro aquela capa da Love, toda a gordura não-photoshopada, não-editada e não-pronta para consumo em massa, mas ali nonetheless, like it or not. Vale lembrar que o mundo tem fobia de gordo. Para a maioria das pessoas, gordo deve se esconder, se manter low profile, não ser muito visível, não falar alto demais e não se exibir como a Beth faz. Senão vira o gordo escroto ao invés do gordo simpático APESAR DE gordo. O gordo com um porém positivo, ao invés do gordo clichê espalhafatoso, espaçoso, fedorento, suando em bicas, a adiposidade esbarrando em coisas e quebrando tudo (muitas vezes dentro dele mesmo).
A Adele aparece em fotos oficiais usando roupa preta em background preto. Ou seja, a menina se anula. A gordura dela fica invisível para fins de apreciação e revenda, e a produção capricha no cabelo e na maquiagem, destacando os olhos claros fotogênicos e a boca perfeita. É como se ela não tivesse corpo nas fotos. Ela esconde a gordura para não ofender as pessoas. Ela é a famosa “gordinha MAS”. “Ela é gordinha MAS é bonita”, “…MAS é legal”, “…MAS sabe se comportar”, a gorda do porém positivo ali em cima.
A Beth é a gorda que pisa na jaca, que posa pelada mostrando as estrias, que usa minissaia, que faz show com os peitos de fora, que é lésbica e fala palavrão, que esfrega batom na testa e não lava o cabelo. A Beth é a “gorda nojenta” clichê, a gorda que, ao se impôr, não se enquadra. A Beth é o que é COM a gordura e não APESAR da gordura.
Não sou particularmente fã de nenhuma das duas, mas o que a gente pensa delas pode dizer mais sobre nós mesmos do que imaginamos.
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